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Entrevista  com Nivaldo Cordeiro, um dos palestrantes do FORTE 2008, da FEBRATEL, em São  Paulo 14/07/2008 ::  João Carlos Fonseca

A Federação Brasileira de Telecomunicações – FEBRATEL –   promove no dia 18 de agosto, em São Paulo, a edição 2008 do Fórum de Relações  do Trabalho em Telecomunicações, com o tema “Liderança Empresarial do  Brasil e os BRICS”. José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em  Administração de Empresas pela FGV-SP. É homem de idéias e seus recados são  diretos. Na qualidade de fórum, o evento promete um debate ativo sobre a  contemporaneidade. Para se inscrever, gratuitamente, é só enviar um e-mail (forte2008@febratel.org.br) ou ligar para  (21) 2541-4848.

A sigla BRICS – Brasil,  Rússia, Índia, China – traduz o coletivo de países emergentes que disputam  lugar no privilegiado clube do Primeiro Mundo. A liderança empresarial, sua  formação e a dinâmica política são importantes fatores nessa disputa. A  entrevista com o economista José Nivaldo Cordeiro foi feita por e-mail.  As perguntas foram editadas para fins de publicação, mas as respostas estão  reproduzidas em sua íntegra, tal como nos foram enviadas pelo entrevistado.

FEBRATELEm que consiste a liderança  empresarial, tema do FORTE 2008? É a liderança dos empresários perante a  sociedade ou é a liderança de pessoas nas empresas?

Nivaldo Cordeiro – A liderança, enquanto tal, consiste nas duas coisas. No meio empresarial, há que  emergir vozes que representem seus pares junto à sociedade civil e ao  governo. Da mesma forma, há que liderar as ações dentro da empresa. Uma das  acepções do verbo “liderar” é “conduzir”. Um dos sentidos dado pelos  dicionários ao termo é “ir junto com ou dentro de (algo), de um lugar para  outro, dando-lhe direção e/ou comando”. Portanto, há o movimento que deve ser  orientado em direção a uma meta.

FBTFale-nos da figura do  líder.

NC – O líder é como o proverbial  pastor que sabe aonde vai e o caminho certo, se porta da maneira correta, com  a linguagem correta, faz as coisas no tempo certo. É a figura do spoudaios, o homem que amadurece com sabedoria e é  respeitado pelos pares e pelos mais jovens. Na empresa, essa figura é  representada pelo gerente, seja ele o administrador ou o técnico, o que sabe  fazer e sabe organizar o trabalho.

FBTA liderança empresarial é  um fenômeno comum para o sucesso de todos o BRICS  (Brasil, Rússia, China, Índia)?

NC – Sim. É comum em toda parte,  embora cada cultura imprima a sua própria característica à liderança.  Confesso que me fascina saber como se dá a liderança em uma sociedade como a  chinesa, tão distante de nós em termos culturais e políticos. Certamente que  o viés autoritário seja uma constante, em face do sistema político. Mas, a  recente abertura ao ocidente impactou nas técnicas administrativas, de sorte  de a busca da cooperação e do exemplo, algo tão importante, para nós, devem  ter sido incorporados nos últimos anos. Mas, liderança não é apenas uma  técnica, vai além.

Liderança  na China, Rússia e Índia.

FBT O que acontece na China?

NC – A China, enquanto sociedade  fechada e comunista, tende a produzir um tipo de  líder que eu chamaria de “negativo”, não obstante ele conseguir obter os  melhores resultados técnicos e empresariais, tão bons quanto os nossos. O  fato é que liderar transcende a empresa, impacta a sociedade e a própria  estrutura de poder. Uma sociedade que não tem a liberdade como valor tende a  produzir líderes que não a valorizam e, por isso, enquanto homens, falham. Um spoudaios é,  antes de tudo, um defensor da liberdade.

FBTVamos falar da Rússia?

NC Na Rússia, vemos emergir  uma sociedade conturbada com o fim do regime comunista, cujo regime  democrático ainda não está consolidado. Então temos fenômenos interessantes,  como uma grande agressividade empresarial casada com os males da sociedade  ocidental do século XIX. As estatísticas mostram que em 2007 houve queda na  população russa, pela mortalidade dos velhos e de pessoas jovens. Uma coisa  selvagem. A redução de população em uma unidade política será sempre uma  tragédia. Há, aqui, uma clara indicação de que houve uma escassez de bons  condutores, de bons líderes; e não apenas de líderes políticos.

FBTSó lhe falta comentar sobre  a Índia…

NC – A Índia, por sua vez,  conseguiu adaptar sua cultura milenar ao que de melhor tem o ocidente. Seus  jovens invadiram as universidades ocidentais e levaram para o seu país  inovações importantes, tanto que criaram centros de excelência notáveis.

FBTQuais as vantagens  competitivas do Brasil?

NC – O Brasil tem grande vantagem  por estar próximo dos mercados consumidores do ocidente, ter fartura de  matéria prima, fuso horário compatível com os EUA.

FBTAs vantagens da China?

NC – A China, por sua vez, tem mão  de obra barata, o que tem o lado ruim, o dos indicadores sociais.

FBTE as vantagens da Índia e  Rússia?

NC – A Índia conseguiu ter centros  de excelências tecnológicas; a Rússia, fartura de petróleo.

Liderança  no mundo empresarial.

FBTHá alguma diferença entre  “empresa pequena, média ou grande” para a “liderança  empresarial do Brasil no contexto dos BRICS?”

NC – Veja. A função de liderar tem  um fundo comum, que é a inteireza de alma, o compromisso de vida com seus  liderados, com a família, com a pátria. É uma responsabilidade muito grande  ser líder, em qualquer contexto, seja numa pequena, numa média  ou grande empresas. O desempenho mais das vezes é medido no processo  competitivo, que leva em conta inovações tecnológicas, técnicas de  comercialização, organização no processo produtivo e motivação das pessoas  envolvidas no processo. Então, há um fundo comum. Cada líder tem que saber  tirar proveito daquilo que tem à mão.

FBTComo deve agir o Brasil?

NC – O estrategista que “toca”   negócios no Brasil precisa saber os pontos fortes e fracos dos competidores,  e não apenas daqueles que vendem no mercado mundial. O mercado mundial também  é aqui, na medida em que os produtos importados chegam às prateleiras de  nossos supermercados. Compreender o processo como um todo pode ser a chave do  sucesso empresarial.

FBTHá diferença entre  “empresa multinacional” e “empresa nacional” para a  “liderança empresarial do Brasil, no contexto dos BRICS?”

NC – Essencialmente, não. Certos  setores multinacionais têm grandes desvantagens quando vêm para o Brasil.  Veja o caso de bancos de varejo. Não conseguiram entrar. É difícil, muito  regulamentado. Veja o setor de TI. As multinacionais fabricantes tiveram que  desenvolver uma rede de parceiros para entrar no nosso mercado, por muitas  razões, o que abriu um leque de oportunidades para pequenas e médias empresas  do setor.

FBTO que distingue uma  multinacional?

NC – As multinacionais têm várias  vantagens, como um conhecimento amplo do mercado mundial, facilidades de  financiamentos mais baratos, produção própria de tecnologia e um padrão  competitivo de classe mundial. Elas são muito cuidadosas com o  desenvolvimento de seus quadros gerenciais, seus líderes. E têm também a  vantagem de importar talentos, quando esses faltam, com algum perfil  específico.

O  sistema sindical.

FBT Qual  sua visão sobre o sistema sindical praticado no Brasil, visto  em perspectiva histórica?

NC – Eu não gosto desse sistema, de  concepção fascista. Sou favorável ao livre mercado, ao livre sindicalismo;  sou pelo fim do imposto sindical. Penso que associações desse tipo devem ser  voluntárias e custeadas pelos interessados.

FBTQual a importância dos  sindicatos patronais?

NC – Os sindicatos patronais são  muito importantes para representar os setores e cuidar para que os interesses  coletivos não sejam ameaçados, seja por medidas legislativas, seja por  medidas arbitrárias do Poder Executivo.

FBTE dos sindicatos laborais?

NC – Já os  sindicatos laborais são de grande importância para manter o equilíbrio  na relação capital/trabalho.

A  presença do Estado.

FBTNo contexto dos BRICS  (Brasil, Rússia, índia, China), como o Sr. percebe a  presença e a atuação do Estado?

NC – Aqui está a questão central.  Esses países têm em comum o fato de viverem ou vive de experiência com algum  grau de socialização. Como a literatura prova à exaustão, a ingerência do  Estado é perniciosa para a produtividade e para o desenvolvimento econômico,  além de prejudicar a justa distribuição da renda.

FBTO Sr.,  então, vê a redução do Estado como algo positivo?

NC – Sim; aquele que conseguir  reduzir o Estado e a regulamentação e patrocinar as livres trocas  internacionais irá proporcionar o maior institucional para que as empresas  alcancem seu apogeu.

FBTPoderia citar um exemplo?

NC – É esse o segredo da China, que,  não obstante manter o regime político fechado, abriu  largas zonas para o livre comércio. Está crescendo a taxas espetaculares,  semelhante às alcançadas pelo Brasil nos tempos do “milagre”. Livre mercado é  o combustível desse processo.

FBTE o caso do Brasil?

NC – No Brasil estamos na  contramão, com o crescimento da regulamentação, da carga tributária, da  ingerência estatal. Nossos líderes empresariais precisam fazer-se também  líderes políticos para fazer mudar essa realidade. Estado Mínimo é o  essencial para tornar nossas empresas competitivas.

Os  BRICS no cenário mundial.

FBTOs BRICS competem ou se  aliam no cenário internacional?

NC – Depende do tema. Nos mercados,  eles competem ferozmente. O crescimento da China, por exemplo, em alguns  mercados, está sendo feito à custa da nossa indústria. Por outro lado, abriu  enormes mercados para os produtos que não chocam com nossa matriz industrial.

FBTE quando se trata de  política?

NC – Na arena política, há um certo alinhamento dos governos contra os EUA, que eu  considero um erro. O Brasil não tem porque hostilizar aquele que é nosso  maior mercado e tem uma democracia que é exemplo para o mundo. Entendo a  postura da China e da Rússia que têm pretensões geopolíticas diferente das  nossas. Entrar nesse coro, todavia, só nos trará perdas.

FBTO Sr.  acha que o Brasil, que é o “B” dos BRICS, tem vocação natural para  basear seu sucesso em commodities e produtos extrativos ou deve  investir em inovação?

NC – Veja que o Brasil tem uma  forte vocação agrícola. Isto é um fato que até as pedras sabem. O Brasil já é  o maior produtor (senão o maior exportador) em muitos mercados, como carne,  soja, álcool, frutas etc. E o País vai crescer porque tem território, água e  uma liderança empresarial nesse setor de fazer inveja a concorrentes.

FBTEntão, a vocação do Brasil  seria explorar seus recursos naturais?

NC – A situação do Brasil não se  esgota aí. Temos uma grande matriz industrial. No setor de TI, a vocação para  crescer é total, com fuso horário favorável e estabilidade política, que  falta aos concorrentes (a Índia tem ogiva atômica do Paquistão apontada para  ela). Então, não temos que fazer nenhuma escolha; temos é que explorar as  potencialidades de ambas as áreas. Essa é uma falsa questão.

A  presença do Estado.

FBTO Brasil já foi apelidado  de um “BRIC lento”. O Sr. concorda ou  discorda?

NC – O Brasil ficou lento nas  décadas recentes. Visto em um contexto mais amplo, a afirmação não se  sustenta. O que tem segurado nosso desenvolvimento são dois fatores: o  descontrole de preços, que perdurou muito, e o agigantamento do Estado, que  ainda continua. Na verdade, o primeiro fator está contido no segundo.

FBTO Estado, então, seria  grande demais no Brasil?

NC – Sim. Vejo que precisamos  mobilizar as forças da nação para reduzir o gigante estatal. E quando falo  isso, estou pensando pelo lado da receita e da despesa. É preciso reduzir  impostos, mas igualmente as despesas.

FBTComo seria, no seu  entender, a redução de impostos e das despesas do Estado?

NC – Não tenho nenhuma fórmula,  apenas sei que se precisa ser feito e aqui a demanda por  líderes positivos e genuinamente comprometidos com os interesses gerais da  nação precisam emergir. Não será um processo nem curto e nem fácil.  Teremos que enfrentar crenças socialistas fortemente arraigadas. Mas, essas  crenças são malignas, erradas, são os grilhões que nos prendem e impedem o desenvolvimento voltar a ocorrer de forma  acelerada.

FBTO Sr.  acha que seria necessário reformular tudo?

NC – Acho que precisamos redesenhar  o Estado, repensar a federação, a representação. É uma demanda para redundar a nação.

FBTMas, isso seria possível?

NC – Sei da importância do que  estou dizendo, da gravidade das minhas palavras. Mas, não seria honesto com  os leitores não dizer o que penso e vislumbro. Temos que redundar  politicamente o Brasil para que os brasileiros possam enriquecer e prosperar  e se tornar um povo mais feliz. Para tanto, precisamos reduzir o monstro  estatal. Não temos alternativa.

Pensador  brasileiro

FBTA programação do Forte 2008  se refere a Ortega y Gasset. Qual o pensador  brasileiro que dele se aproxima?

NC – Olavo de Carvalho. Ele é  profundo e comprometido com a nacionalidade.

FBTAlgum outro tema que queira  comentar?

NC Sim. Seria relativo aos  rumos políticos atuais do Brasil que vejo com muita apreensão. Estamos na  rota revolucionária. O PT está, desde que assumiu o  poder, ocupando todo a aparelho de Estado e conduzindo o Brasil no rumo da  socialização, exatamente na contramão da nossa necessidade histórica, de ir  em busca da liberdade.

FBT O momento atual  seria, então, motivo de preocupação?

NC – Eu vejo com muita preocupação  a hipótese ou do terceiro mandato ou de ser eleger alguém da linha do PT.  Podemos estar em véspera da destruição da alternância de poder no Brasil,  algo que na prática já vige, na medida em que não existem forças políticas ditas  de “direta”. Não há organizações partidárias verdadeiramente comprometidas  com o livre mercado, o que é uma tragédia colossal.

FBTO Sr.  poderia explicar?

NC – Agora dar o monopólio do poder  político às forças em torno do PT é muito grave, pois equivale a manter o  curso do processo revolucionário. Isso se casa com o que está acontecendo com  a maioria dos países vizinhos, todos atuando no âmbito do Foro de São Paulo,  com a notável exceção da Colômbia, que acabou de infringir vigorosas derrotas  às FARC, o braço colombiano do FSP.

FBTAlgum recado?

NC – Nossos líderes empresariais  precisam largar a passividade e ir para a arena política, tendo consciência  dos perigos que estamos vivendo. Esses perigos podem significar uma regressão   civilizacional de grande monta, como vimos na  Venezuela e no Zimbábue, este em maior proporção. Não estamos longe disso. E  não existe nenhum determinismo histórico que nos diga que as forças do livre  mercado devem ser derrotadas. Não.

FBTComo assim?

NC – Se lutarmos, se líderes  assumirem as suas responsabilidades, podemos,  aqueles que combatem pela liberdade, retomar o caminho perdido e colocar o  Brasil na trilha do desenvolvimento. Mas, isso não acontecerá por inércia,  terá que vir pela mãos de homens inteligentes,  sóbrios e comprometidos com a nação. Certamente que os setores das Teles com  e de TI terão que dar sua contribuição de novos líderes, que confrontem os  adversários socialistas, para mudar o curso da nossa História.

FBTSuas palavras finais.

NC – Acredito firmemente que esse é  o lado “certo”. Como dizia Ortega, não se pode permanecer no “erro”. O  socialismo é um erro que precisa ser corrigido. As lideranças empresariais  não poderão escapar ao enfrentamento dos inimigos da civilização.

Inscrições gratuitas  para o FORTE 2008: forte2008@febratel.org.br  ou pelo telefone (21) 2541-4848.

Veja aqui a programação  completa do FORTE 2008

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