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MEDITANDO COM ORTEGA

13/09/2008

 

O livro Meditaciones Del Quijote, de Ortega e Gasset, é notável não apenas pelo conteúdo e pelo lugar central que ocupa na obra do autor, mas também porque nele contém uma Nota ao Leitor (responsável por 20% do texto da obra) que é uma espécie de manifesto filosófico e uma carta aos espanhóis de todas as gerações. Uma dura crítica e um alinhamento incondicional do filósofo com sua gente. É realmente tocante ler essa Nota, que contém, entre outras preciosidades, a famosa máxima: “Yo soy yo e mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo”.

 

É esta uma sentença imortal que garante a Ortega um lugar de honra entre os grandes da filosofia de todos os tempos. Mas o que quero aqui é pontuar esse engajamento vital dele com a Espanha, sua história, sua arte, sua literatura. Não é especial que um filósofo de proa tenha escolhido para sua obra inaugural a crítica a partir do grande romancista? Não há uma única referência aos filósofos espanhóis, vivos ou mortos de então, uma maneira nada lisonjeira de Ortega declarar sua irrelevância, ao tempo em que exalta verdadeiramente o que importa: Cervantes.

 

Ortega declara no primeiro parágrafo: “Estes ensaios são para o autor – como a cátedra, o jornal ou a política – modos diversos de exercitar uma mesma atividade, de dar saída a um mesmo afeto. Não pretendo que essa atividade seja reconhecida como a mais importante no mundo; me considero ante mim mesmo justificado ao advertir que é a única de que sou capaz. O afeto que a ela me move é o mais vivo que encontro em meu coração. Ressuscitando o lindo nome que usou Spinoza, eu o chamaria de amor intellecualis”. Amor pelo que? Pela Espanha, em primeiro lugar, mas também pelo Ocidente e, em última análise, pela humanidade. Um amor à Verdade, podemos generalizar.

 

Acrescenta ao final da Nota: “O leitor descobrirá, se não me equivoco, até os últimos rincões destes ensaios, a pulsação da preocupação patriótica. Quem os escreve e a quem vão dirigidos se originaram espiritualmente da Espanha caduca. Agora bem, a negação isolada é uma impiedade. O homem pio e honrado contrai, quando nega, a obrigação de edificar uma nova afirmação. Se entende, de tentá-la”. Ele o faz. Ortega jamais perdeu esse ponto de vista, de pensar a Espanha falando aos espanhóis de seu tempo. Assim falou à humanidade inteira.

 

Nessa Nota Ortega antecipa o que viria publicado depois, seu fio de pensamento a partir dos autores de ficção, citando dois outros importantes para sua obra: o romancista Pio Baroja e o poeta Azorim. Ortega, de fato, não quis conversa com os maus filósofos de sua pátria, abrindo-se, no entanto, inteiro para os artistas da língua.

 

Outra idéia fundamental que desenvolve é a unidade dos povos mediterrâneos, gênese de sua futura proposta da unificação política da Europa. Ortega proclama que a variedade de tipos e de raças compõe uma unidade. Naquele ano da Graça de 1916, em que a horrível I Guerra Mundial estava acontecendo, foi um verdadeiro prodígio de clarividência e de criação intelectual. Superando todo o senso comum e os ódios embrutecedores que levaram à guerra, Ortega viu além e proclamou o que viria a se consolidar como verdade política: a União Européia.

 

Se não escondo minha admiração pelo texto tão substancial, não posso esconder meu desapontamento com uma omissão que clama aos céus. Ortega investiga a origem da unidade européia desde Grécia e Roma, passando pelo contributo das raças nórdicas naquilo que poderia ser, a sua produção depois de sua cristianização. Não custa dizer que não haveria nenhum contributo germânico se não fosse o esforço dos missionários cristãos, que trouxeram os até então chamados bárbaros para o centro da civilização. Mas onde os judeus e o judaísmo? Onde o cristianismo? Nem uma palavra. Por quê?

 

Seria objeto de um ensaio entender a relação de Ortega com a religião e o cristianismo. Certo, ele invoca sempre Deus e reconhece desde sempre a metafísica. Mas ignorar solenemente o papel do judaísmo e do cristianismo na formação européia é mais que uma lacuna, uma omissão: é um erro. Entendo que Ortega, refletindo o espírito dos tempos, tentou fazer filosofia isenta de religião, como se isso fosse possível. Ao morrer beijou o crucifixo de um padre (*), mas já era tarde: sua obra havia sido escrita. Esse erro custará caro.

 

Veja-se o confronto com a obra de Voegelin, seu contemporâneo. Este parte precisamente da herança da Revelação, bem como da Grécia. Germânico de nascimento, Voegelin ignora essa raiz recente dos nórdicos para a formação européia, dando o peso devido àquilo que é realmente mais antigo e fundamental. E, bem a propósito, tem na sua obra um lugar de destaque para Miguel de Cervantes.

 

Essa omissão de Ortega reflete também muito da influência de Nietzsche, filósofo a que se remete sempre. Na época Nietzsche estava no auge da aceitação acadêmica e fascinava a todos. Certamente Ortega sabia que, ao adotar Nietzsche tinha, por coerência, que descartar o cristianismo. Ao menos Ortega não se utilizou da retórica rasteira do filósofo germânico contra o cristianismo, o que agravaria ainda mais o seu erro. Contentou-se com o silêncio.

 

(*) Martim Vasques da Cunha, em seu ensaio José Ortega y Gasset e a encruzilhada da clareza (publicado na revista Dicta&Contradicta em seu primeiro número), relata o fato.

 

II

 

 

14/09/2008

 

Continuando o argumento do artigo anterior, quero dar aqui um exemplo de como a visão deliberadamente omissa de Ortega com relação ao cristianismo levou-o a becos sem saída teóricos. Cristianismo não é apenas religião, é teoria e ciência, é a explicação do real na sua mais alta expressão. Refiro-me ao Apêndice do livro EL TEMA DE NUESTRO TIEMPO, sob o título El ocaso de las revoluciones. Todo o erro orteguiano fica aqui exposto de forma crua, como quero demonstrar abaixo.

 

No texto, Ortega propõe uma periodização histórica que se pretende universal: “Todo pueblo tiene su edad antígua, su edad media, su edad moderna. Con ese uso cambia por completo el sentido de la periodización tradicional, y sus tres estadios dejan de ser rótulos externos, convendionales o dialéticticos, para cargarse de un sentido más real y como biológico. São la infancia, la juventude, la madurez de cada pueblo”. Como prova de sua argumentação faz um paralelo da história moderna com a de Roma e Grécia.

 

Ora, se há algo singular na história humana geral é a história do Ocidente. Ainda que se aceitasse o anacronismo de se comparar as sociedades forjadas na Era pós cristã, ficaria o vazio da mesma comparação não poder ser transportada para outras civilizações. Os impérios orientais e as sociedades neolíticas que permaneceram não podem, de forma alguma, ser enquadrados nesse esquema. E aqui temos a primeira grande divisão: o Ocidente descobre o tempo histórico, o sentido em busca de uma meta e essa periodização só adquire nexo nesse contexto. Não pode haver qualquer periodização fora da realidade do Ocidente. E o tempo histórico é a mais genuína criação judaica, herdada pelo cristianismo e que tem em Santo Agostinho seu primeiro grande teórico.

 

Os impérios mitológicos das sociedades orientais vivem imersos na falsa consciência do eterno retorno do mesmo, o tempo circular a-histórico, que no fundo é a tese implícita na obra agnóstica de Ortega, vez que deliberadamente o autor abandonou a verdade judaico-cristã. Acrescenta Ortega: “Em las épocas de alma tradicionalista se organizam las naciones”. Como falar de nações como as conhecemos antes do cristianismo? Antes de o Ocidente irromper como realidade histórica na Europa? O que havia até então eram impérios e não nações. Ou sociedades tribais. Ortega não se dá conta do anacronismo em que se meteu.

 

Mas o filósofo é grande demais para caber dentro de seu próprio erro. Por isso escreveu: “La democracia moderna no proviene directamente de ninguna democracia antigua, ni de las medievales, ni de las griega y romana. Estas últimas sólo han proporcionado a la nuestra una terminologia tergiversada, el gesto y la retórica. La Edad Media procede por correciones al régimen. Nuestra era, en cambio, ha procedido por revoluciones; es decir, que en lugar de adaptar el régimen a la realidade social, se ha propuesto adaptar ésta a un ideal esquema”.

 

Se substituirmos a palavra “democracia” por “regime totalitário”, do que na verdade Ortega está falando, o pensamento fica claro. Ou “democracia popular”, como a chamam os comunistas. É uma grande novidade, a que ele desvela. E a novidade consiste nisso, que o idealismo revolucionário pós cristão só pode nascer da negação do real, da “razão histórica” ou “razão vital”, como a batizou. Bem Ortega frisou:

 

Cada revolución se propone la vana quimera de realizar una utopía más o menos completa. El intento, inexoravelmente fracassa. El fracasso suscita el fenómeno gemelo y antitérico de toda revolución: la contra-rrevolución”.

 

Ocorre que essa luta entre revolução e contra-revolução é o duelo entre verdade e mentira ou entre a realidade como ela é e a fantasia desmiolada dos idealistas. Ortega viu isso com toda clareza no Dom Quixote, sua grande expressão literária. Mas Ortega não viu que o real é a verdade cristã e que o ideal é precisamente a fuga ao cristianismo ou à verdade. E esse fato não pode ter paralelo na antiguidade, como erroneamente quis ver: “Se repite, pues, en Roma el mismo mecanismo, funcionam las mismas ruedas que en Atenas y en Francia”. A história se move no tempo linear e não no tempo circular. Não pode haver o eterno retorno do mesmo.

 

Tão grande é Ortega que o cristianismo rejeitado retorna triunfante por ele mesmo, na delicada epígrafe posta ao texto, uma citação dos Evangelhos (Mar, 2-27) “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado”. A palavra de Jesus o redime.

 

III

 

16/09/2008

 

Um exemplo ainda mais substantivo do erro de perspectiva de Ortega y Gasset ao descartar o judeu-cristianismo da explicação da formação da Europa está no texto HISTORIA COMO SISTEMA Y DEL IMPÉRIO ROMANO, onde ele sublinha com muita força: “El hombre necesita de uma nueva revelacion”. E ele mesmo a propõe: a razão histórica. Vou tentar mostrar que o erro original levou-o a novo erro e que essa nova revelação não é necessária. Vejamos.

 

O que torna o Ocidente o que é são apenas dois importantíssimos momentos na história: a descoberta da razão pelos gregos e a Revelação da tradição judaico-cristã. Essa é a fonte da liberdade. Tudo o mais é conseqüência. Isso nos distingue de todas as formas orientais ou arcaicas de organização política e social. Ortega só reconhece o primeiro fato e, por isso, passa por cima de todas as evidências de que a modernidade é uma doença do espírito, uma grave corrupção que tem paralelo na própria história cristã. A modernidade nega o real, fato que está escancaradamente mostrado na obra DOM QUIXOTE, da qual emana sua inspiração filosófica.

 

As seitas gnósticas do primeiro século eram nocivas não apenas por causa de sua blasfêmia, mas também porque negavam o real e propunham o retorno às formas mitológicas de organização política, quais sejam, a confusão entre a Cidade de Deus e a Cidade dos homens. Novas formas para o culto de Moloch e Baal. Em resumo, o retorno aos mitos. Não é por outra razão que a Igreja primitiva vai se bater fortemente contra as heresias, pois elas representavam um grave perigo para consciência. E vence precisamente porque a Igreja é portadora da verdade.

 

Esse descolamento do real assume a forma de alucinação milenarista. Os modernos revolucionários são os novos sacerdotes do deus-Estado. O real é precisamente dado pela razão e pela Revelação, ambas mostrando a correta antropologia. A modernidade ignora o homem como ele é e parte para moldá-lo aos seus preconceitos. A doença da modernidade é essa, que, ao ignorar o real, simplifica um tipo de ser humano idealizado sobre o qual constrói seus moinhos de vento, à direita e à esquerda. Ambas, direita e esquerda, vão buscar em Epicuro e nos estóicos a inspiração para sua falsa produção teorética. Marx e os consequencialistas “liberais” são exemplos acabados dessa fuga do real. São perigosos alucinados.

 

Ortega se bate contra o Estado dominado pelo homem-massa, mas não percebe que se volta contra sua própria lição. Quem manda no mundo? – pergunta-se insistentemente ao longo de sua obra. Ora, quem manda no mundo são os malucos que abandonaram Deus e a tradição e mesmo quando falam no Seu nome fazem-no no desvio gnóstico. Esses malucos são os demagogos que declararam por primeiro a morte de Deus. Essa negação básica leva à destruição da hierarquia natural que o próprio Ortega defende, entre os homens “nobres” e o homem-massa. O discurso igualitarista dos demagogos é a mentira suportando outras mentiras e se dando ar científico. Trágico. Deu no que deu, na violência apocalíptica que o próprio Ortega previu. E não haverá como restabelecer a necessária hierarquia sem se recuperar a mensagem que está em Platão e nas Escrituras.

 

Não foi a Europa que deixou de mandar no mundo, ao contrário do que Ortega diagnosticou. Foram os homens sãos, que sabiam e por saber carregavam a mais alta moralidade, que deixaram de mandar. Os europeus distintos, portadores da tradição, perderam o poder.  Os cegos de libido dominandi passaram a mandar, não apenas na Europa, mas no mundo inteiro. Europeus e seus filhotes, como Mao, Ho Chi Min e os revolucionários de todos os quadrantes. O mundo desde então se tornou um hospício, cuja indústria mais próspera é aquela que planeja diuturnamente a matança em larga escala de seres humanos, pelos melhores (!) meios disponíveis. A bomba atômica, nesse contexto, é o coroamento desse processo.

 

A razão, descoberta pelos gregos, foi uma iluminação. O próprio Platão dá testemunho disso, ao falar da metaxo e relatar sua experiência em termos religiosos. A razão como conversão, termo este que depois será tomado pelos cristãos, por analogia. Voltar-se para o Bem é sobretudo compreender o real e atuar dentro dele com plena consciência, escapando às sombras ilusionistas da caverna e aos ruídos emburrecedores da doxa.

 

Então não precisamos ter uma nova revelação – ou conversão -, mas sim, ter a exata dimensão da Revelação já dada e viver dentro da verdade conhecida. É preciso resgatar a tradição. Por isso a tese da razão histórica ganha importância, mas não por aquilo que Ortega acha, enquanto novidade reveladora. Mais das vezes, no seu argumento, Ortega passa da história pessoal como conquista e como degraus alcançados na consciência de cada homem para uma analogia com a história em geral. E vice-versa. Se é fato que no plano pessoal a história é um avançar, há que se sublinhar que trazer a realidade histórica ao presente de cada indivíduo é um esforço que precisa ser feito para alargar a consciência. Esse, sim, é o grande avanço, a plena razão histórica.

 

A história pessoal pode se perder se essa consciência mais ampla da história não for conquistada. Ortega mesmo insiste que o homem-massa é um homem sem passado, a-histórico. E o é porque se esqueceu da tradição, não porque não saiba recitar os fatos históricos como acontecidos. O homem-massa é louco, mas não é burro e nem desinformado. Entre eles estão os doutos em muitas ciências. Não é de qualquer história que ele é desprovido, é da história do Ocidente, dessa conquista da razão e da Revelação.

 

Toda a coisa é muito complexa e a análise de Ortega seria exímia se não tivesse descurado do principal, a herança judaico-cristã. Um erro insanável. Sem que se traga para o presente essa realidade histórica substantiva não haverá cura para o homem moderno.

 

 

IV

 

19/09/2008

 

Vimos até aqui que Ortega comete um deslize capital ao negligenciar a tradição judaico-cristã na formação do que ficou conhecido como Ocidente. O fato é surpreendente, porque Ortega é um pensador maiúsculo, se insights extraordinários e de um domínio completo sobre a literatura e filosofia como poucos conseguiram na história intelectual. Eu sempre me pergunto a razão de ter sido assim e não tenho dúvida de que estamos diante de um tema que pode ser explorado para se escrever um livro estupendo, tengenciando a biografia do autor e sua filosofia.

 

Ortega conseguiu seguir a trilha mais difícil, desde a sua profundidade mais extraordinária: o livro DOM QUIJOTE DE LA MANCHA. Sem embargo, mergulhar nesse livro, esquecendo tudo que se produziu como filosofia, como Ortega o fez, para escrever filosofia foi um feito extraordinário. Isso deu a Ortega um lugar imorredouro na história do pensamento mundial. Sua filosofia política não teria a fecundidade que tem – coroada pelo extraordinário A REBELIÃO DAS MASSAS – sem as reflexões cervantinas.

 

Por que esse erro tão essencial foi possível? Nietzsche, diria eu, é o grande culpado. Ortega deixou-se enfeitiçar pelo bigodudo. Perdeu sua trilha ao cair no alçapão do escravo de Zaratustra. Abraçar Nietzsche é negar Cristo, é negar o judaísmo. Mas Ortega é grande demais para caber dentro dessa prisão nietzschiana. Sua teoria política, tão esclarecedora dos contundentes fatos que aconteceram depois de sua obra escrita, confirmando-a, mostra isso à exaustão. O que é perene em Ortega é o que persiste nele de cristão, da tradição na sua obra, e não o equívoco nietzschiano aqui sublinhado.

 

Um último exemplo desse equívoco, para encerrar essas meditações. Vemo-lo cru em um texto excelso: EL TEMA DE NUESTRO TIEMPO, publicado em 1923,  posto no segundo Apêndice: El sentido histórico de La teoria de Einstein. O erro de Ortega foi se enamorar da teoria física e tomá-la como confirmação de suas próprias idéias sociológicas. Ortega caiu no relativismo mais pueril. Mais do que nunca não poderia haver paralelo entre a física e as ciências sociais, a sociologia e a história, muito menos a ética. Ortega só caiu nesse buraco porque preso ficou à armadilha inicial de negar a importância fundamental do cristianismo para formação do Ocidente.

 

[Cabe aqui recordar que Paul Johnson, no livro monumental TEMPOS MODERNOS, vai sublinhar o grave equívoco que aconteceu no início do século XX. Depois da divulgação da teoria da relatividade, quando essa explicação estrita no âmbito das ciências naturais foi tomada como empréstimo para as múltiplas e perniciosas formas de relativismo, cultural, histórico e civilizacional, vimos seu efeito devastador, que servirá inclusive para a emergência política do homem-massa. Certo que Ortega foi vítima dessa ilusão de ótica e contribuiu notavelmente para a sua divulgação, ao emprestar sua maestria para a propaganda do erro.]

 

No início do texto Ortega escreveu: “Este análise nos descubrirá El sentido histórico de La teoria de La relatividad, lo que ésta es como fenômeno histórico. Sus peculiadidades acusan ciertas tendencias específicas en el alma que La há creado. Y como un edificio científico de esta importancia no es obra de un solo hombre, sino resultado de la colaboración indeliberada de muchos, precisamente de los mejores, la orientación que revelen esas tendencias marcará el rumbo de la historia occidental”.

 

E continua: “Não quiero decir con esto que el triunfo de esta teoria influirá sobre los espiritus, imponiéndoles determinada ruta. Esto es evidente e banal. Lo interesante es lo inverso: porque los espiritus han tomado espontáneamente determinada ruta, ha podido nacer y triunfar la teoria da relatividad. Las ideas, cuanto más sutiles y técnicas, cuanto más remotas parezcan de los afectos humanos, son síntomas más auténticos de las variaciones profundas que se producen em la alma histórica”.

 

O erro está aí exposto com toda sua extensão. Por isso Ortega pôde concluir, páginas adiante: “La propensión utópica há dominado em La mente eutopea durante toda La época moderna: em ciência, em moral, em religón, em arte. Ha sido menester de todo El contrapeso que el enorme afán de dominar lo real, repecífico del europeo, oponía para que la civilización occidental no haya concluído en un gigantesco fracaso [Onde o Ocidente fracassou foi precisamente no abandono daquilo que lhe é mais essencial e peculiar. NC]. Porque lo más grave del utopismo no es que dé soluciones falsas a los problemas – científicos o políticos -, sino algo peor: es que no acepta el problema – lo real – según se presenta; antes bien, desde luego –a priori – le impone una caprichosa forma”.

 

Ortega não percebeu o absurdo que é sua conclusão, ele que denunciou a quebra da hierarquia natural entre o homem-massa e o homem nobre: a hierarquia civilizacional. Não se pode comparar a verdade como ela é, o real, dado pela razão e pela Revelação, com nenhuma forma mitológica de organização social ou política, por mais respeitável e vetusta que seja. Ortega não vê que o lixo ocidental não é o Ocidente enquanto tal. Não captou essa essência de Cervantes. Por isso pôde escrever a conclusão absurda:

 

Si se compara La vida de Occidente com La de Ásia – indos, chinos -, sorprende al punto la inestabilidad espiritual del europeu frente al profundo equilibrio del alma oriental. Este equilibrio revela que, al menos en los máximos problemas de la vida, el hombre de Oriente ha encontrado fórmulas de más perfecto ajuste com la realidad. En cambio, el europeu ha sido frívolo en la apreciación de los factores elementales de la vida, se ha fraguado de ellos interpretaciones caprichosas que es forzoso preiódicamente sustituir”.

 

Ortega não viu a doença espiritual do Ocidente, que vem desde o Renascimento, doença que manteve sua classe pensante, sua classe política, no mundo do “como se”, em perfeito descolamento do real, fato que DON QUIJOTE DE LA MANCHA ostenta sem hesitação. Essa doença ocidental não é o Ocidente, que é o cristianismo. E dessa doença vai sair o vírus a contaminar o mundo inteiro, a China como a Índia e tudo o mais. A força que Ortega via nessas vetustas civilizações não resistiu ao miasma pestilento que receberam do Ocidente. As revoluções políticas foram por elas importadas e, na esteira, empilharam também seus milhões de mortos no altar da estupidez humana. Revelou-se que força alguma havia naquelas civilizações que pudesse barrar a catástrofe.

 

Há uma hierarquia civilizacional, parelha com a hierarquia entre os homens. Isso é o real. Negar o fato é cair no mundo sonambúlico, é cair no relativismo daquilo que é absoluto e não pode ser relativizável. Um erro colossal.

 

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