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A série de TV Dexter me prendeu do primeiro ao último capítulo. É uma obra de arte muito bem feita, com atores excelentes e muito bem dirigida. Eu me perguntava como seria o fecho da história e vi que os roteiristas conseguiram uma saída além do senso comum. Gostei muito do final, mas claro que não vou contar aqui, para não estragar o prazer de quem ainda não completou a série.

Na verdade, a série é um drama de suspense policial, que conta a história de um serial killer que é funcionário da polícia de Miami e filho de policial. Sua irmã é também policial. A narrativa eletriza porque Dexter consegue se safar sempre, por sua força, inteligência e astúcia. É claro que há muitas licenças na narrativa, às vezes alguns equívocos de argumento, mas no geral a história é bem contada.

Dexter é um matador que só mata pessoas perigosas, assassinos contumazes que, por circunstância, escaparam do sistema policial e judiciário. Uma crítica à Justiça estatal? Sem dúvida. Lá nos EUA, como cá, o sistema de Justiça é seletivo e depende muito do advogado e das relações políticas que eventualmente um criminoso possa ter. E do papel da imprensa, muitas vezes instrumento de satanização e pré-julgamentos que impõem aos acusados “culpas” irreversíveis, aumentando os erros judiciários. Infelizmente a crítica ao Estado fica apenas nas entrelinhas. Lá, como cá, não é saudável fazer discurso contra o coração repressor do Estado.

O pai de Dexter, Harry Morgan, percebeu a compulsão assassina do filho e lhe cria um código, pelo qual ele só mataria culpados evidentes. Como pai e policial ele deveria ter sido o primeiro a tirar a fera de circulação, mas escolheu treina-lo para a matança em série. Há algumas exceções ao longo da série, mas a regra do código é, em geral, cumprida. A personalidade do psicopata é fascinante, porque ele é frio e praticamente incapaz de amar ao longo das primeiras séries, mas no final quase se humaniza e tenta ter o sentimento comum de amor. É quase a sua derrocada. Acompanha o personagem a visão do pai, que com ele dialoga, expressão típica de esquizofrenia. Harry Morgan é seu permanente alter ego, sempre lhe lembrando o código. Desaparece no capítulo final, quando Dexter demonstra emoção e deixa de matar sua vítima, entregando-a à irmã policial.

O interessante é que o fecho da história, na oitava temporada, é muito inventivo. Introduziu-se um novo personagem, Evelyn Vogel, uma neuropsiquiatra que seria a “mãe espiritual” de Dexter, pois foi a criadora do código que Harry Morgan impingiu ao filho. Alguns críticos acharam uma falha de narrativa, eu não. Penso que o personagem serviu de escada para que os roteiristas colocassem sua “filosofia” ou sua antropologia para o público. Aqui eu quero notar algumas coisas importantes. Em primeiro lugar, o filme é desesperadamente niilista, pois vê-se a falência do aparato estatal a cada episódio, sua incompetência e, mesmo, o abrigo oferecido a mentes criminosas, que o usam para ampliar sua ação matadora. A lei estatal é um fiasco.

Em segundo lugar, não é possível deixar de notar que Dexter mata como que oferecendo um sacrifício no altar. Sua mesa é elaborada, bem como seu ritual de matança com arma branca. Obviamente pode-se concordar com a fala posta na boca de Evelyn Vogel, a de que Dexter é o mais perfeito psicopata. É como um sacrifício ao deus da Morte o que ele faz. Há algo de demoníaco em Dexter, de anjo vingador. Mas não há Deus no filme, só o mal. E Dexter é o homem mau que, supostamente, produz o bem em sua ação maléfica.

Também foi posto na boca de Evelyn Vogel que a humanidade só foi bem sucedida porque os postos de mando são ocupados, desde sempre, por psicopatas em variados graus. Os roteiristas pensam que só existe o mal e que o bem só pode ser gerado como seu subproduto. É a velha história gnóstica de sempre, sob roupagens eletrizantes de uma bem sucedida série de TV. É claro que o bem existe, está aí e que o mal é a ausência do bem, precisamente o oposto da tese defendida por Evelyn Vogel.

Note-se que Dexter é produto da ciência, o próprio personagem, no segundo episódio da oitava série, se diz uma Frankenstein psíquico, uma criação da neuropsiquiatra. A cientista maluca produziu o perfeito gênio do mal que, na sua ação, apenas vinga a sociedade dos homens maus.

Se alguém ver a série desatento pode deixar passar essas realidades relevantes. A maldade literária (o roteiro do Dexter é muito bom) é aceitável, mas o enredo, não. É preciso dizer com todas as letras que seus autores são gnósticos em alto grau. E estão essencialmente errados.

É uma boa diversão ver Dexter, mas também é uma oportunidade para meditar sobre muitas das questões relevantes do nosso tempo.

 

NOTA: Publiquei no meu Twitter/Facebook:

Ainda o seriado Dexter. As duas primeira temporadas são estupendas. A história do açougueiro do caminhão de gelo introduz a história dele, Dexter. A sequência da primeira temporada é um filme de suspense de primeiro nível. Dexter enfrenta o passado, vence o irmão. Mas gosto mesmo é da segunda temporada, a que fala do açougueiro do cais da baía. Os diálogos entre o Sargento Doakes e Dexter são imortais. Dexter argumenta que os Sargento Doakes, por receber um salário do Estado, não é moralmente superior a ele, que faz um “serviço” gratuito. Dexter também lembra da ação de Doakes nas forças especiais, quando nem a desculpa da lei tem para si. De algum modo vi nas falas de Dexter com Doakes a minha tese de que a função do Estado é mesmo matar, na guerra ou na polícia. Na segunda temporada fica revelada a visão de mundo dos roteiristas de Dexter. Os maus precisam praticar o mal para produzirem o bem. Gnose. O fecho da segunda temporada de Dexter se dá com a personagem Lila, que bem poderíamos chamar de Lilith. Garota infenal, incendiária. Lila é um duplo de Dexter e sua função é única: protege-lo. Por isso ela mata Doakes e livra Dexter da polícia. A salvadora precisava morrer. Foi um milagre? Pergunta-se Dexter. Não. Como filho das trevas teve a proteção das trevas. O materialismo de Dexter é fachada, tudo nele é satânico. Sob a lua cheia Dexter sente calma. Um forte simbolismo. Em frente à cabana. Ele acabara de dizer ao Doakes que cumpre a lei do pai. Seu pai oculto, o deus da morte, o deus lunar, noturno. Dexter é todo simbolismo. Harry preferiu suicidar-se quando viu o mal dentro do filho. O simbolismo da lua cheia, o luar de prata, é o ambiente da emergência do mal. A partir do minuto 27 do penúltimo capítulo da série 2 está lá. Sob o luz de prata da lua cheia emergem os vampiros, os mortos-vivos, os lobisomens. Toda fauna infernal sai no plenilúnio para fazer o mal

 

 

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2 Comments

  1. kleber santos

    Nivaldo, o senhor afirma que a série “Dexter” é uma obra desesperadamente niilista, certo? no entanto, o senhor afirma que Dexter é um produto da ciência, uma criação da neuropsiquiatra.” A cientista maluca produziu o perfeito gênio do mal que, na sua ação, apenas vinga a sociedade dos homens maus”, suas palavras. não seria um erro afirmar que a série é niilista tendo a ciência como destaque rendentora, como salvação? vejo um certo paradoxo aqui. por favor, clareie minha ideia.

    atenciosamente, kleber.

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    • A ciência, vista de formar hipertrofiada, é um mal. Ela não pode fazer a reengenharia humana. Esse é o sonho desesperado da modernidade, criadora de Frakensteins psíquicos.

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