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“Plata o plomo” era o lema de Pablo Escobar para tratar dos “negócios” e da política. A série da TV colombiana realça esse lado violento e louco do mais famoso dos filhos da Colômbia. Essa série não tem o padrão da produção do Narcos do Padilha e padece de alguns defeitos óbvios, mas o ator principal é muito bom. O elenco tem altos e baixos e se fica com a impressão de grande amadorismo na produção.

A série foi obviamente direcionada para ser a versão oficial e governista dos acontecimentos. Nela não se vê uma única cena de violência policial contra os traficantes, como se esta fosse monopólio do narcotráfico. É contrastante com o Narcos, que mostra a violência desenfreada dos dois lados, até porque a narrativa é feita sob o ângulo da visão dos agentes da DEA. Mesmo com esses defeitos, a série passa os principais traços de personalidade do traficante: frio, calculista, determinado, estrategista. Escobar era extremamente afetivo com a família e os seus, mas para os inimigos era um monstro. Ser amigo ou inimigo podia ser apenas uma diferença de uma frase mal colocada. Não hesitava nem diante do perigo nem diante da crueldade. Esta, aliás, era sua principal arma. Ter Escobar como inimigo era uma sentença de morte.

Ele, de fato, colocou o Estado de joelhos, determinou convenientes mudanças no sistema jurídico, como a proibição constitucional de extradição para os EUA, aterrorizou as autoridades e fez o que bem quis, até ser finalmente morto pelas forças policiais. Sua prisão foi uma farsa ridícula, que humilhou as autoridades. Usou de todas as armas, inclusive e sobretudo do terrorismo, técnica que aprendeu com os combatentes esquerdistas da Colômbia e da Espanha. Nas cenas de confronto com a polícia vemos que a turma de Escobar levou desvantagem diante do uso do helicóptero pela força policial e me pergunto porque ele não usou armas mais eficientes para abater esses aparelhos. Seus sicários ficavam indefesos diante da chuva de balas que recebiam do alto, de uma metralhadora de cano duplo de efeitos devastadores. Não havia como se defender.

Essa conexão com a guerrilha revolucionária era consoante suas relações com Cuba, Nicarágua e Panamá. Escobar fez dos países que passaram por revoluções comunistas seu canal de distribuição de cocaína para o EUA e o mundo. Ele sempre se disse simpatizante da esquerda política não por motivos comerciais, mas por motivos ideológicos. Acreditava na revolução e nas suas técnicas violentas. É de se perguntar o papel do mercado consumidor de cocaína como responsável por nutrir um monstro das proporções de Escobar. No fundo, quem matou tanta gente foi o consumidor final em suas farras hedonistas, Escobar era o instrumento endinheirado desse negócio macabro.

A série omite as suas conexões com o Brasil, exceto que gostava de passear no Rio de Janeiro em busca de mulheres fáceis. Bem sabemos que gente como Fernandinho Beira-Mar era seu parceiro. Quanto do dinheiro de Escobar teria vindo do Brasil ninguém sabe, mas não deve ter sido pouco.

Por mais governista que o diretor da série tenha sido não pôde esconder a personalidade fascinante e ambivalente do patrón del mal. A sua relação com mãe foi um caso digno de Freud, bem como a sua compulsão pelas mulheres. A mãe parece ter sido o ponto de referência de sua vida, a quem prestava homenagens contínuas. As cenas nas quais ela o abençoava são impressivas e o lado brega não esconde o fato de que ele era o herói da mãe, seu guerreiro.

A retratação de Escobar chega a ser maniqueísta. Os membros da elite governante e empresarial são sempre apresentados na série como pessoas elegantes e refinadas, vestindo grifes internacionais e sempre portadoras de boas maneiras e boas intenções. Já Escobar e sua turma são retratados mal-ajambrados, feios, bregas, grosseiros. A coisa chapada fica artificial. É um aspecto da visão oficialista do diretor que depõe contra a obra.

É claro que em Escobar o elemento heroico é ressaltado. Enfrentar o Estado, como o fez, vencendo-o continuamente por décadas, é tarefa para um Hércules. Certo, era um agente do mal, um assassino frio, mas o Estado é também um assassino frio e um agente do mal. Quem sabe não se ilude. Escobar estava do lado errado da pista e acabou vencido pelas forças da ordem, como tinha que ser. Mas nesse combate não há anjos. O maniqueísmo soa muito artificial.

De qualquer modo, é uma delícia ver o desenrolar da história. A série vale a pena ser vista.

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