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Quando escrevi o artigo O complexo de Helena foi por uma necessidade imperiosa que senti de tentar explicar alguns fatos irracionais que custam vidas, especialmente dos jovens. Naquela oportunidade peguei o caso de um homem jovem que fez uma chacina por um motivo banal, a prostituta de quem ele gostava estava atendendo outro homem e ele se sentiu desprestigiado. O homem rejeitado incorpora a ira de Marte, deus da guerra. O drama do homicídio, seguido ou não de suicídio, envolvendo a relação homem mulher é tão antigo quanto o homem. Ontem novamente tivemos algo assim, um casal jovem, bem situado na vida, resolveu dar fim a si mesmo “para fugir do sofrimento” (Ver aqui) Nenhum fato concreto a provocar sofrimento parecia que os afligia, apenas as percepções psíquicas do casal.

 

Veja-se que é o tema do Romeu e Julieta de Shakespeare na sua integralidade. Aqui não temos o impedimento das famílias e nem a inimizade entre elas como suposta causa externa ao relacionamento. Aprofundado, veremos que é somente a relação dos dois que leva ao beco sem saída da solução extrema e irracional. Foi o que eu tentei mostrar no artigo citado e os mesmos argumentos são válidos. A constante a explicar a motivação para o desfecho está na grande literatura e bem vemos que a vida real vai muito além do que a imaginação dos escritores pode ir.

 

Disseram que o casal viu a série da Netflix 13 Reasons Why, cujo tema é o suicídio de jovens. Pode ser um motivador, mas não creio que forte o suficiente para determinar o fato. Como foi o romance Werther a seu tempo, associado a uma epidemia de suicídios. O fato é que o duelo homem/mulher é mais do que relação humana, é jogo arquetípico ou, se quiserem, a força dos deuses é posta em movimento quando há o encontro amoroso. Muitas relações estranhas acontecem rotineiramente e parecem fugir ao razoável. Tanto homens quanto mulheres caem nessa armadilha de ficarem em aparente beco sem saída, no qual a única solução é o recurso à violência extrema contra si mesmo. Obviamente que é o fascínio arquetípico que cega, convidando para a morte rápida.

 

Percebo que nem o homem vê apenas a mulher e nem a mulher vê apenas o homem quando a relação amorosa se estabelece. Imediatamente forças poderosas constelam na mente de cada um. O homem passa a se relacionar diretamente com Vênus pelo corpo da mulher e a mulher passa a ver em si mesma esse modelo indescritível e fascinante. O espelho e as roupas são tentativas permanentes de alcançar o padrão dessa imagem tida como divina. Não basta ser bonita, é preciso ser a mais bonita, inclusive para si mesma.

 

Da mesma forma, o afã homossexual e, mais ainda, o transformista, é essa tentativa de viver em si a beleza fascinante da deusa do Amor. A identificação com ela explica muito comportamento bizarro, inclusive casos absurdos de estupro e violação. O fascínio leva à violência extremada; a ignorância desse fascínio torna suas vítimas presas fáceis. Só uma consciência do fato psíquico é que poderia quebrar o encanto macabro.

 

O papel do homem é passivo, mesmo havendo o suposto antagônico da imagem de Marte constelada. O deus da guerra é sempre um bobão correndo atrás da irmã sedutora. O determinante é que o casal está sob o fascínio dessa força misteriosa que é a sedução da beleza da deusa e dela não consegue escapar.

 

A obra de Goethe é, toda ela, desde o Werther até o Fausto, uma tentativa erudita e competente de tentar entender essa coisa misteriosa, penso que bem sucedida. A imagem de Helena é apenas uma representação romanceada da face da deusa do Amor. Essa sedução que encontramos também nos registros bíblicos, especialmente e sobretudo com a figura de Eva, ou, mais precisamente, de Eva com a serpente e a maçã. O mundo judeu-cristão nunca perdeu de vista essa associação da sedução feminina com o pecado e a morte, sem romanceá-la nem enfeita-la. Custou à humanidade o exílio do Jardim do Éden, o que não é pouca coisa.

 

A falsa solução pagã para esse drama da alma é o mergulhar incondicional na orgia e a entrega voluntária ao fascínio da deusa Vênus, ela a própria representação do mal. Hoje em dia mulheres de todas as idades querem ser jovens e sedutoras como a deusa, querendo fazer do corpo o instrumento da sedução permanente. Vovós vestidas como ninfetas é o que se vê em toda parte. Nunca devemos esquecer que o escudo da deusa é o pentagrama, a representação sintética de Satã. É o fascínio da sedução que é o motor de todos os pecados e o instrumento da perda da razão, levando a humanidade à perdição. Inversamente, a solução judaico-cristã é a ascese e, quando não possível, o matrimônio monogâmico com todas as suas regras. Ao drama de Eva o cristianismo propôs a virgindade de Maria como caminho de salvação. O ideal ascético da virgindade pré-nupcial é o desdobramento natural da proposta cristã.

 

O mundo moderno abandonou o cristianismo, sobretudo nas regras que regulam o matrimônio. Essa é a fragilidade da alma dos nossos tempos. Explosões de violência oriunda do relacionamento homem/mulher estão cada vez mais frequentes e inexplicáveis sob a luz da razão. As gerações atuais não estão imunizadas contra o mal, cujo efeito só Deus-Pai todo poderoso pode enfrentar, conforme reza o Pai-Nosso. Vê-se que nesses assuntos do coração a humanidade continua a mesma, desde sempre. Fugir do falso amor da deusa Vênus é condição para se ter o verdadeiro amor de Deus e o resistir ao mal. Não fazê-lo pode ser o encontro com o suicídio e o homicídio, formas bastante ineficazes e equivocadas de preencher o vazio existencial.

 

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