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O médico Dráuzio Varella publicou no sábado, certamente a pretexto do Dia dos Namorados, artigo em que acusa as dessemelhanças e supostas inferioridades do ser feminino inserido em sociedade. Esta seria implacável com as mulheres, quando, o que se vê, hoje, é precisamente o oposto, ao menos no Ocidente. Certo que mulheres, em meio muçulmano (fato ocultado pelo Doutor no artigo), ainda têm genitália mutilada, mas é preciso o olhar do psicólogo para ver que, mesmo nesses costumes bárbaros, ainda reside aí uma homenagem à superioridade psicológica feminina em face do masculino. É na mulher que reside um elemento de eternidade, ela que pode conceber e dar à luz as novas gerações. Eliminar o clitóris não elimina o essencial, a sedução na e da mulher.

 

Mas eu dizia que no Ocidente vivemos um tempo oposto, que talvez tenha começado com as cantigas medievais no universo cristão. O feminino foi paulatinamente triunfando sobre o masculino. O elemento de eternidade contido na mulher se acrescenta ao magnetismo do elemento transcendente da sedução. A mulher não é apenas ela mesma, o soma, é a própria Vênus nascida das águas que se eleva a cada momento em que fica de pé ou se deita para a contemplação espantada e admirada do olhar masculino. Dráuzio comete o erro de achar que o interesse masculino é despertado apenas pela visão paradisíaca da intimidade feminina que, por um descuido, possa ficar à vista. Não! O encanto no feminino é o conjunto, são as formas que lembram, sempre e sempre, a deusa da beleza. Há uma deusa em cada mulher, por isso legiões de homens nunca deixam de contemplar uma mulher, mesmo que já esteja distante do apogeu de beleza. Fosse assim as representações de Vênus exaltariam a genitália e isso nunca acontece.

 

A escravidão às formas que percebemos nas mulheres nada tem a ver com imposição masculina, ao contrário do que pensa Dráuzio Varella, desarmado que é da psicologia, mas com o jogo feminino mais estrito. Enquanto representante da deusa da beleza, cada mulher não suporta ser ofuscada por outra, daí a obsessão pela magreza, pelo enfeite, pela joia mais perfeita. Pela roupa mais original e mais bonita. A representação pictórica de Vênus sempre se faz com uma mulher jovem e bela e magra, nunca uma matrona cercada de filhos e cheia de rugas. Esse é um assunto feminino e não há como uma mulher gerenciar racionalmente o fenômeno. Apenas tem que ser a mais bela, ponto final. Isso custa um esforço desmesurado. Daí vermos vovós vestidas como as netas sem perceber que aos olhos masculinos a cena tem algo de ridículo.

 

Sim, vivemos um tempo oposto, pois a técnica permitiu que a mulher saísse de seus afazeres maternais e do lar e passasse a ombrear com os homens em todas as profissões. Os mais duros trabalhos hoje conhecem o concurso do esforço feminino e até na guerra elas estão lá, para enternecer os corações dos companheiros e aterrorizar o inimigo. O fato é que a mulher ocidental é muito mais que os homens hoje. Governa tudo, a começar por si mesma. Vive a esplendor da liberdade, inclusive de soltar as amarras da própria feminilidade, que perturba os homens e deprecia a própria mulher. Um dos encantos femininos é o mistério, que se perde à entrega fácil e, pior, ao partir ela mesma para a conquista.

 

Ainda outro dia vi uma mãe repreender a filha adolescente por usar pouca roupa, ao que ela respondeu: “Não está aparecendo nada”. De fato, para nossos padrões permissivos no vestir a pele estava coberta e a genitália devidamente escondida pelo tecido. Mas mostrava tudo, evidentemente o que perturba ao mais estoico dos homens. O perturbador é a forma feminina que emana à divindade. Meninas têm essa intuição. Mais das vezes vejo adolescentes, no calor alto do verão, vestidas com roupas da estação, mas com uma blusa amarrada à cintura, escondendo os glúteos, na verdade escondendo as formas. Na sua inocência impúbere já sabem perfeitamente bem qual é o elemento de poder que têm sobre a plateia masculina.

 

É verdade, um homem normal não consegue deixar de olhar uma mulher que passa (olha que coisa mais linda, mais cheia de graça…). Sua companheira não devia perturba-lo por isso, ali forças ancestrais laboram em prejuízo do homem, sempre vítima da sedução de qualquer mulher. Ali se vê que Helena de Tróia está presente, capaz de, com sua beleza, provocar tragédias épicas e amores tal e qual. O inefável acontece e o enfeitiçado não compreende bem o que está acontecendo com ele mesmo. Não quer, mas vira o rosto instintivamente para contemplar a filha de Eva que passa. O amor é de fato o ser feminino, mais precisamente, a sedução feminina. A mulher não vive sem cultivar essa sua fonte de poder. Contempla o espelho longamente antes de sair à rua, em busca de honrar a deusa com sua própria beleza, não busca menos do que isso. Pode até estar suja de graxa ou sob a roupa de um uniforme horroroso de trabalho braçal, mas estará sempre de unhas pintadas e com batom.

 

Quem é mais poderoso, Michel Temer ou Marcela,  a esposa? (No Dom Quixote tem uma heroína Marcela, descrita brilhantemente como a encarnação de uma Vênus, não se perca o detalhe). Marcela, Claro. Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor, já proclamou o poeta popular.

 

E os homens que querem ser como mulheres? São as vítimas mais espetaculares desse jogo de sedução demoníaco. O sujeito não quer apenas o feminino para si. Ele quer ser a própria Vênus. É todo o ridículo da imitação impossível que acontece e ele fica escravo dos estereótipos  mais bizarros. Vive uma vida infernal. O espelho da deusa Vênus simboliza o corpo feminino e sua expressão psicológica, jamais um intruso masculino caberá nele, que melhor ficaria nos termos marcianos. Aqui penso no caso daquele famoso cartunista que quer frequentar o banheiro delas. Mas é tudo variação sobre o mesmo tema. Marte ele mesmo será sempre o irmão bobão correndo atrás da irmã sedutora, mesmo que vista a fantasia mal cortada de uma roupa feminina.

 

Tinha que falar mais outras coisas. E a voz feminina, a voz de sereia que é veículo da própria sedução? Ninguém há de resistir-lhe. E o sorriso? E o perfume? O cheiro, a própria emanação da sedução e aqui não falo das essências francesas, tão procuradas, falo do cheiro da mulher, do seu suor, das entranhas entumecidas para o amor, plenas de cheiros espetaculares. Não falo mais nada. Feliz Dia dos Namorados!

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