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O recente debate no Youtube entre Olavo de Carvalho e Paulo Roberto de Almeida, embora profundo, me deixou com gosto de “quero mais”. Coincidiu que eu estava lendo o livro de Eric Voegelin editado pela É Realizações, o volume I da História das Ideias Políticas (Helenismo, Roma e Cristianismo Primitivo). Lá Voegelin esboça uma teoria dos impérios e muita coisa do que foi discutida entre o filósofo e embaixador tinha essa teoria implícita. Quero aqui recuperar algumas ideias do livro.

 

A primeira coisa importante é fazer a distinção entre o que é império no Ocidente e no Oriente. Cita-se muito essa diferença sem explicita-la. No Oriente a vocação imperial se impôs desde o Egito Antigo, passando pela Babilônia e seu último rebento, o Islã (O islã é tão antigo quanto o culto da pedra negra, que remonta ao culto de Baal). Aqui não há lugar para culturas autóctones e o constructo imperial impõe a homogeneização social, sem qualquer veleidade de preservar autonomias ou originalidades. O culto aos deuses imperiais e à figura do imperador era a norma. Hoje em dia emprega-se a palavra Estado para designar múltiplas coisas, desde identidades nacionais até a realidade imperial que estamos aqui a tratar. O império não é mero Estado, é entidade que se impõe como simples poder que sufoca o caos original dissolvendo as individualidades num todo, impondo-se exclusivamente pela violência militar. O império não é um “reino” e nem muito menos cabe na definição de Vestefália de soberania, porque congrega múltiplos territórios e múltiplos reinos, pouco importando se submetidos pela força, ou não. A forma oriental jamais permitiu o triunfo do indivíduo e nem das liberdades que não a pura e simples emancipação do caos original. Não é pouco, mas não é tudo.

 

No Ocidente o processo histórico foi diferente. Antes de que viesse a Grécia imperial, com Alexandre, o Grande, tivemos a cidade-Estado, a polis, que fundou a essência do ocidentalismo e permitiu que as liberdades como a conhecemos triunfassem. O cidadão livre se interessava pelo lugar em que nasceu e a virtude cívica se limitava ao governo instituído, sua ‘governança”. O governar não era mero ato de mando, mas exercício de cidadania e de ordem. A morte de Sócrates será talvez a máxima exaltação da virtude política ao respeitar, ao custo da própria vida, as leis da cidade. Sem essa experiência histórica os modernos Estados nacionais não teriam surgido. Em complemento, tivemos o surgimento de Israel, com um rei ungjdo diretamente por Deus, abençoando outra forma de poder municipal. Israel era até então uma federação de tribos. Nem Saul e nem Davi quiseram construir império, mas ter seu território para seu povo, pela vontade de Deus. A discussão sobre Jerusalém remonta a isso. Tanto na vertente grega como judaica o Ocidente formou a raiz não imperial que permitiu não apenas o surgimento do indivíduo, mas também da própria democracia, algo impensável no Oriente até hoje (basta ver as nações islâmicas). Só um indivíduo diferenciado pode haver ali: a figura do próprio imperador.

 

O surgimento do cristianismo conturba essa clivagem, pois a vertente de Agostinho tenta abençoar e restaurar o Império Romano sob a bandeira da cruz e com isso moldou a Idade Média, que a Paz de Vestefália vai sepultar. Ocorre que o cristianismo é essencialmente subversivo, seguindo a tradição que vem dos judeus, afirmando que tudo que vem do príncipe e contraria a lei de Deus não deve ser obedecido. O confronto potencial com os poderes estabelecidos nasce da dissociação do direito divino (e natural) da lei escrita ditada pelo imperador. Vemos um exemplo disso com a atual tentativa de legalizar o aborto. Muito sangue de mártires foi derramado por causa disso. Ao ser decretada a liberdade religiosa em Vestefália, decretou-se o fim de qualquer veleidade de um império cristão, pois o próprio cristianismo estava fraturado pela Reforma (na verdade, desde a origem, com as formas oriental e ocidental). O Ocidente, por assim dizer, é anti-imperial na essência, o que permitiu que os Estados nacionais fossem formados, assim como moldou as democracias modernas. O moderno Estado nacional é o legítimo herdeiro da polis, da filosofia grega, do direito romano e da ética judaico-cristã. Sua forma jurídica espalhou-se pelo mundo, mas sua origem é bem determinada.

 

A forma imperial que vingou no Ocidente foi a romana, que se caracterizava por respeitar as originalidades dos povos dominados. O drama do Tibet mostra que mesmo na China ocidentalizada dos tempos de hoje essa realidade não pode vingar no Oriente. Veja-se que, com Alexandre, a própria filosofia grega mudou, tendo surgido o estoicismo e sua Cosmópolis. O ideal deixou de ser a polis para ser o império ou a polis passou a ser o império. Bom lembrar que o estoicismo nasceu como resposta filosófica aos novos tempos imperiais de Alexandre e lançou as bases da democracia ao professar a igualdade de todos seres humanos e a sua própria divindade, cada homem portando a centelha divina (nada a ver com o cristianismo, puro materialismo à moda de Demócrito e Epicuro). Foi Cícero que introduziu no modo de pensar romano o estoicismo, legitimando no âmbito filosófico sua dominação do império ocidental e convencendo a elite romana de seu destino imperial.

 

Desde tempos imemoriais a globalização acontece como processo natural, nascida da troca de mercadorias e de experiência, inclusive de tecnologias e materiais. Ela se impõe como necessidade e tem permitido o crescimento exponencial da produtividade do trabalho e uma riqueza cultural que nem se imaginava. Uma inovação em um remoto rincão acabava por chegar a todos os habitantes da terra. Esse processo inexorável nunca parou e não tem como parar.

 

O globalismo, enquanto ideologia para recriação de império, seja nos moldes orientais e ocidentais, não depende da globalização e, de ser forma, a ela se opõe, na medida em que divide os seres humanos em fronteiras herméticas. Bem vimos como foi a experiência da Cortina de Ferro, que isolou a Rússia e seus satélites por décadas, condenando aquelas populações a uma purgação desnecessária. O contraste entre as Alemanhas até hoje persiste. Essa ideologia está viva e, como ensinou Olavo de Carvalho, tem três vertentes: 1- a ocidental, a que chamo estoica, que pretende realiza-la nos moldes herdados do Império Romano; 2- A islâmica, que outra coisa não é do que a continuidade do projeto que vem da antiguidade, com um califa e uma única religião, a do Profeta; e 3- A russo-chinesa, uma variação da ocidental com sede em Moscou. Como frisaram tanto Olavo de Carvalho como Paulo Roberto de Almeida, quem pugna pelo globalismo luta debalde, pois, enquanto utopia, é irrealizável como produto final, o que não impede seus adeptos de realizarem tentativas continuadas de implantação.

 

O “outro mundo possível” que querem construir é essa alucinação sem pé e sem cabeça, inimiga das liberdades, do indivíduo, do bem-estar geral e dos valores cristãos.

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