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Desde que foram publicados no Brasil estou lendo e relendo os dois livros de Mark Lilla, que não saíram da minha cabeceira da cama na intenção de eu produzir um comentário (A Mente Naufragada e A Mente Imprudente, ambos pela Editora Record) sobre ambos. Eu não conseguia escrever, não tinha um gancho, não sabia o que dizer. Os livros fascinavam de tão bem escritos, tão eruditos, expostos de maneira simples. São agora duas horas da matina. Ontem à noite, antes de deitar, mais uma vez li os capítulos sobre Leo Strauss e Eric Voegelin e fiquei infeliz e insatisfeito, pois Lilla está errado sobre eles, como aliás sobre tudo que escreveu nesses dois livros. Mas onde estava o erro? Eu não conseguia verbalizar e por isso não conseguia produzir este comentário. Desisti e fui dormir. Acordei há pouco de um salto, com uma ideia na cabeça. Descobrira o erro. Uma hora de sono “meditativo” me dera o insight que está aqui: Lilla errou porque apresentou um falso dilema para a obra de Strauss, que é na verdade seu próprio dilema falso: entre Atenas e Jerusalém. Ou nos apegamos aos profetas ou aos filósofos, disse Lilla. Ou Sócrates ou Isaías.

 

O verdadeiro dilema não é geográfico, a geografia não pode servir de metáfora porque não há alternativa entre as duas memoráveis cidades. Os profetas e os filósofos se complementam para ensinar a verdade, pois ela é uma só. O verdadeiro dilema está em toda obra de Platão e de qualquer grande filósofo desde então: é entre a filosofia e a sofística. O próprio Lilla, com toda erudição, é um sofista e sua arte de escrever está posta a serviço da mentira filosófica. Sua análise é grossa mentira e, de tão bem escrita., pode levar os leitores ao erro, a ficar de costas para a verdade. Tanto Leo Strauss como Eric Voegelin gritaram de tanto escrever essa constatação singela, imitando Platão. Quem foi Maquiavel senão um sofista? Quem foi Heidegger senão um sofista? Neste, a questão do ser foi apenas um pretexto para voltar aos grandes mestres sofísticos da antiguidade.

 

Há uma teleologia em ambos os livros, que na verdade são um só, divididos em dois grandes capítulos. Aliás, podemos usar as palavras dos seus títulos para descrever o próprio Mark Lilla, que ele é uma mente “naufragada” e “imprudente”. Enfrentar essa discussão profunda a partir de sua teleologia é um erro colossal. Qual o cerne da questão? Entender a modernidade, como ela surgiu e como foi possível e, a partir disso, entender o fenômeno do nazismo e do comunismo e de todo descenso civilizacional visto no século XX. Lilla deixa claro na sua narrativa que as ideias da mística judaica contidas na cabala geraram a modernidade. No primeiro livro o veículo dessa teleologia é Walter Benjamin, que teria influenciado gente como Hanna Arendt e, no segundo, Franz Rosenzweig. Por mais que os intelectuais judeus tenham sido relevantes para a divulgação das ideias apocalípticas da tradição judaica, de forma nenhuma eles foram relevantes para explicar a modernidade e, portanto, o descenso civilizacional verificado no século passado. A questão pode até ser invertida: a eclosão da modernidade é que explica o caldo de cultura em que essa gente foi gestada e se espalhou, adquirindo influência.

 

A modernidade é tudo que veio no Renascimento e depois, inclusive e com destaque para a Reforma. Por que esse mundo da mentira emergiu em substituição ao magnífico modo de pensar dos antigos, tão cultuados na chamada Idade Média? Filósofos judeus foram importante na trajetória rumo ao niilismo, na sua manifestação e divulgação, como Spinoza (nem citado por Lilla), mas não foram determinantes na sua genealogia. Quem teria sido então o autor que, com força, influenciou a filosofia na modernidade, gerando aberrações como Heidegger e a Escola de Frankfurt? É consensual: o sofista-mor Epicuro resumido na obra de Lucrécio, Da Natureza. Há narrativa de como foi a descoberta desse livro no Renascimento, de como ele se espalhou deslumbrando os novos filósofos. Tudo foi pela sua leitura. A modernidade vive e viceja na sombra fantasmagórica de Epicuro, outra grande lacuna não comentada de Mark Lilla.

 

Ainda uma outra deficiência explica a fraqueza de Lilla: o seu materialismo filosófico. Ao comungar da ideia básica de Epicuro (o materialismo) ele nega objetivamente qualquer fundamento metafísico da filosofia e da religião e, portanto, do Direito e da Justiça e da Ética. O costume substituiu a Revelação na sua visão de mundo. Por isso não tinha como compreender e aceitar Strauss e Voegelin. Lilla é um aleijado espiritual e um cego filosófico. No fundo, no fundo, seus livros são roteiros justificadores do que aconteceu mediante ideias fantásticas e análises equivocadas. Sua erudição é fake, um instrumento para o erro e sua perpetuação. Oculta a verdade, um grande crime espiritual.

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