Quem Sou

Professor Nivaldo Cordeiro

Sou cristão, liberal em economia, conservador nos costumes e democrata. Abomino todas as formas de tiranias e de coletivismos. Acredito que a Verdade veio com a Revelação e que a vida é uma totalidade, não podendo ser cindida em departamentos estanques. Abomino qualquer intervenção do Estado na vida das pessoas e na economia, além do imprescindível para manter a ordem pública. Acredito que a liberdade é um bem que se conquista cotidianamente, pelo esforço individual, e que os seus inimigos estão sempre a postos para destruí-la. Preservá-la é manter-se vigilante e sempre disposto a lutar, a combater o bom combate. Acredito que riqueza e prosperidade só podem vir mediante o esforço individual de trabalhar. Fora disso, é sair do bom caminho, é mergulhar na escuridão da mentira e das falsas promessas.

Digo como o grande Ortega y Gasset: “Dou o que tenho; que outros, capazes de fazer mais, façam o seu mais, como eu faço o meu menos“.

POR QUE ME DECLARO CRISTÃO

26/03/2001

É muito difícil definir em que consiste o meu cristianismo. Em primeiro lugar, porque Cristo é, antes de tudo, uma expressão simbólica e como tal contém o Inefável, o Indizível, aquilo que escapa à compreensão humana. Lendo os belos textos das Escrituras vemos muitas metáforas e outra figuras de linguagem, pois a definição das coisas divinas não é fácil na linguagem humana. Gosto especialmente do discurso de Paulo no Areópago (At17,22 +) em que fala do Deus Desconhecido. Gosto quando Paulo fala do Deus Vivo, gosto quando Cristo disse que vem renovar a Aliança, mas vem também fazer valer a Lei, uma contradição aparente. Gosto quando Paulo diz que “Deus não faz acepção das pessoas” e gosto da vocação evangelizardora cristã, sua mais nobre missão.

O que mais me seduz no Cristianismo é a sua idéia fundamental de que a Humanidade é uma só, que Deus é um só, e que pela Graça haverá a Salvação. Sem isso a vida ficarigosoramente oca, não vale a pena, é transitória, dolorosa, contraditória, aterrorizante. A morte, diante de uma negação de Deus, é a única saída sensata para um ser inteligente, para escapar da horrenda condenação a que está submetida a Natureza, a vida a devorar-se a si mesma, eternamente, numa sucessão de dores inúteis.

Então a minha crença consiste em dar fé ao testemunho dos homens excepcionais que escutaram a mensagem de Cristo e outros, como Paulo, que viveram uma experiência avassaladora e irresistível, de “ver” Cristo. De homens modernos, como Jung, que nos afirmam que a experiência desses homens antigos é verdadeira e que o Deus Vivo continua vivo como sempre, em cada um de nós. De homens como Miguel de Unamuno, que ungidos da bênção da poesia, conseguem exprimir a fé como uma verdade filosófica. De homens como Olavo de Carvalho, que, a partir de intelectos excepcionais, dão-nos a garantia a nós outros de que Verdade e Fé são uma única e mesma coisa.

Mas o Cristianismo tem ainda outras belezas. Tem as virtudes, em especial a Caridade. E o que dizer do Perdão? Da Tolerância? Da Paciência? Uma religião que prega a prática desse conjunto de virtudes, dificílima, que por si só exige do vivente uma força interior de um gigante, tem algo de extraordinário e de transcendente.

Mas tenho também muitas perguntas, acho que todas elas sem respostas, dentro das limitações humanas. Por que “esse” plano de Salvação? Em que consiste precisamente a Salvação? Por que Deus permitiu que Satã tivesse força para ser a Sua negação? Etc, etc, etc.

O que me consola é ter aprendido com Unamuno que a fé pressupõe a dúvida e entre as duas fica o crente crucificado durante a sua existência. Era a sua maneira peculiar de ver no homem uma imitação do Cristo pregado à Cruz, “morriente”.

Por fim, há um conjunto de sonhos que tive, nos quais aparece a Cruz Resplandecente e que dão a minha própria sustentação empírica à minha fé. É a maneira com que o Bom Deus abençoou-me com uma dádiva, uma gota de Sua bondade. Como explicar isso para quem não viveu algo igual? É indizível, é o que nos torna sós, solitários em meio a multidão. Haveria ouvidos para ouvir? Duvido. Quem é mesmo o meu próximo? Hoje só hápseudos cristãos guerreiros (aonde está a paz de Cristo?) em busca de revolução, ninguém quer mais saber do Pão da Vida, mas do Reino desse Mundo, a ruina do Espírito na ensandecida busca da salvação pela política, vale dizer, pela matéria.

DEVER DE CONSCIÊNCIA

03/02/2002

Em conversa com amigos, perguntaram-me porque decidi me expor, escrevendo quase que diariamente sobre temas variados e opinando sobre os fatos da conjuntura. Resposta na ponta da língua: faço-o por dever de consciência. Por mim, por minha família, por meus amigos, por meu País.

O estilo que adoto nos meus curtos escritos é o da sobriedade, mesmo quando manipulotemas naturalmente polêmicos e explosivos. Sem ela, poderia acontecer dos textos tomarem o tom denuncista e, por isso mesmo, perderem a credibilidade. Mas sobriedade não significa fazer concessões: ela é um mero estilo de escrever. Minhas palavras são tão duras quanto merecem os temas trabalhados, sem fazerem concessão de espécie alguma. E não é sem esforço, pois os temas são candentes e a minha inclinação natural é a explosão verbal de indignação. Mas, assim, os textos teriam a eficácia diminuída.

Decidi escrever por dois motivos fundamentais. Primeiro, porque descobri que, no meio-dia da vida em que me encontro, eu tenho algo dizer. Mas decidi também fazer esse estafante – e gratificante – esforço porque a mentira e a desinformação tomaram conta das nossas fontes de informação e senti-me na responsabilidade de fazer o contraponto, no limite das minhas possibilidades. Tive que fazer um grande esforço pessoal para escapar da lavagem cerebral a que estamos submetidos e decidi somar esforços com os poucos gatos-pingados que também decidiram enfrentar a mentira institucionalizada, voluntária ou não, que domina os nossos meios de comunicação e de produção cultural.

Não escrevo por dinheiro, nem por vaidade, nem por projeto político pessoal. Escrevo como uma espécie de missão. Posso até dizer que o faço hoje não mais por escolha – se é que algum dia o fiz –  mas por um impulso interior que só se controla diante da crônica do dia redigida. Por ser assim, desfruto da máxima liberdade, aquela liberdade inebriante que só a arte de escrever pode permitir. A sublime liberdade.

Algumas publicações, em diferentes regiões do Brasil, têm acolhido as minhas notas. Fico feliz e lisonjeado por isso. Mas me daria por satisfeito com a requintada platéia que tenho na Internet, essa grande maravilha, que permitiu juntar-me aos solitários de alma e unir-me àqueles que estavam irremediavelmente ilhados. Essa será talvez a maior revolução da rede, a de deixar que homens e mulheres que têm o que dizer, e o fazem por dever de consciência, amplifiquem a sua mensagem, fazendo-a chegar aos lugares mais distantes. É uma confraria dos solitários de alma.

Tenho feito novos e grandes amigos entre os seres mais especiais, não apenas em nosso País, mas também no exterior. É uma dádiva e uma recompensa trocar correspondência com essas pessoas e ocasionalmente encontrá-las. É uma graça divina partilhar da riqueza espiritual de tanta gente distinta, jovens e velhos, todos muito talentosos.

É por isso que escrevo com gosto. Mudei a minha rotina e aumentei a minha carga de trabalho, mas é o que faço de mais importante nesse instante da minha existência.